COLUNA

Dr. Ricardo Caponero

Colunas
home · Coluna · Dr. Ricardo Caponero · Notícias Sobre o Câncer Comunicação com pacientes e familiares frente à morte
Dr. Ricardo Caponero

Dr. Ricardo Caponero

Oncologista Clínico e Coordenador do CATSMI – Centro Avançado de Terapia de Suporte e Medicina Integrativa

Comunicação com pacientes e familiares frente à morte

Apesar da morte ser a única certeza absoluta que temos na vida, há uma imensa dificuldade em aceitar a finitude. Mesmo em situações onde a morte já parece iminente, existe a dificuldade em admitir sua presença. Parece que sempre há uma esperança, e depois outra, como se a morte não fosse nunca acontecer.

Essa troca de mensagens é cheia de ruídos e depende do contexto em que ela ocorre, depende da situação psicológica e espiritual dos envolvidos e depende, fundamentalmente da forma em que o diálogo ocorre.

Em situações onde a morte parece uma possibilidade mais remota, as pessoas não querem falar sobre assuntos “tristes” quando eles não são um problema imediato em suas vidas. Mas quando a morte é uma possibilidade real essas pessoas estão despreparadas, imaturas, para lidar com o assunto.

Como diz António Damásio em seu livro “O mistério da consciência”, Nossa percepção de nós mesmos se dá em níveis que interagem entre si em mão dupla.

O nível básico de regulação da vida – o kit de sobrevivência – inclui os estados biológicos que podem ser percebidos conscientemente como impulsos e motivações e como estados de dor e de prazer. As emoções encontram-se em um nível elevado e complexo. Por exemplo, a dor pode induzir emoções, e algumas emoções podem induzir um estado de dor.

A regulação básica da vida consiste de padrões de reação relativamente simples, estereotipados, que incluem regulação metabólica, reflexos, mecanismo biológico subjacente ao que se tornará dor e prazer, impulsos e motivações.

Por outro lado, as emoções consistem de padrões de reações complexos, estereotipados, que incluem emoções secundárias, emoções primárias e emoções de fundo.

Os sentimentos são padrões sensoriais indicativos de dor, prazer e emoções tornam-se imagens

E no final de tudo, na consciência, a razão superior consiste de planos de ação complexos, flexíveis e específicos para a situação são formulados em imagens conscientes e podem ser executados como comportamento.

Do ponto de vista biológico, uma espécie só é eficiente para preservar-se se desenvolver processos eficientes que garantam sua sobrevivência e a procriação; toda espécie eficiente precisa preservar a vida e reproduzir-se. Isso é tão forte que está determinado nos níveis mais fundamentais da existência e se manifesta não pulsões.

Na comunicação esse patamar mais básico se manifesta muito mais pela linguagem não verbal do que pelo verbalizado.

A Profª Maria Júlia Paz, grande estudiosa da comunicação, aponta o uso da paralinguagem, os sons que emitimos durante a comunicação; a cinésica, referente às posições e movimentos; a proxêmica, que se refere a territorialidade; e, por fim, a tacêsica, que se refere ao toque, ao contato.

É imperioso saber que muito provavelmente ocorrerão problemas de comunicação, por vários, e o mais frequente é o que ocorre de diferentes visões de mundo.

Toda a precariedade da comunicação humana reside em dois obstáculos fundamentais: a personalidade e a linguagem. A comunicação humana é essencialmente individual e, sendo individual, é afetada pela personalidade, o que torna problemático o significado.

Um agravante é a linguagem imperfeita com a qual nos comunicamos. Poucas palavras tem um único significado. Seu sentido se modifica dependendo do contexto em que ela é utilizada e da entonação.

Assim temos um “objeto” (do mundo real), as representações mentais que associamos a ele e as ideias que construímos.

No nosso cotidiano, conversas difíceis tendem a ser ignoradas, deixadas de lado. Mas, em situações graves como a fase final de vida, a pressão frente ao inevitável faz com que não seja possível ignorar a situação, adiar a conversa ou fugir do debate.

Para que a comunicação com pacientes e seus familiares frente à morte tenha sucesso é preciso engajamento e firmeza de propósitos. O ideal é que todos exponham suas ideias e que aos poucos se vá ressaltando os pontos comuns e deixando visões ilusórias do ocorrido pela objetividade da realidade, da forma mais plena possível. Esse é um processo gradual, mas irreversível. É preciso pôr o dedo na ferida e suportar a dor. Mas, no final deve permanecer a ideia de que a vida é sempre finita e que não adianta buscar um sentido para a vida. O sentido está em viver.

Referências:

António Damásio. O mistério da consciência – do corpo e das emoções ao conhecimento de si. 2ª edição – São Paulo – SP – Companhia das Letras 2015. p.54
Silva MJP. Comunicação tem remédio: a comunicação nas relações interpessoais em saúde. 3 ed. São Paulo: Loyola; 2002.

Agende uma consulta

Agende a sua consulta ou exame com nossos times multidisciplinares integrados pelos telefones (11) 3549-1364 - (11) 3549-1365

AGENDE SUA CONSULTA