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Dra. Ana Coradazzi

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Dra. Ana Coradazzi

Dra. Ana Coradazzi

Integra a equipe de Cuidados Avançados de Suporte e Medicina Integrativa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz

Obstinação terapêutica: quando menos é mais

Nos últimos anos temos assistido a indescritíveis progressos da Medicina no que diz respeito à preservação da vida humana. Somos capazes de substituir a função de órgãos doentes, controlar doenças crônicas fatais, combater o câncer através da compreensão de seus mecanismos moleculares, entre tantas outras coisas assombrosas, que deixariam os médicos de cem anos atrás estupefatos. Hoje vivemos muito mais e muito melhor, e isso é indiscutível. A questão que nos desafia hoje é outra: quais são, afinal, nossos limites?

É nesse ponto que surge a diferença mais significativa entre os médicos de hoje e aqueles de antigamente. Quando não se dispunha de tanta tecnologia, a morte das pessoas era considerada como algo natural, e os médicos compensavam sua impotência diante das moléstias esmerando-se no cuidado individualizado, esforçando-se para oferecer conforto e mitigar o sofrimento dos seus pacientes. Hoje, justamente por termos tantos recursos à disposição, facilmente nos deixamos seduzir pela ideia de que a morte está mais para uma opção do que para um evento natural, e é essa ilusão que faz com que médicos talentosos sucumbam ao que chamamos de obstinação terapêutica.

Obstinação terapêutica consiste em iniciar ou continuar ações médicas que não têm outro objetivo além de prolongar a vida de um paciente quando ele está em processo irreversível de morte. Insistir em meramente prolongar a vida biológica de alguém a todo custo implica numa séria agressão à sua dignidade. Desde os tempos de Hipócrates, o pai da medicina, a base da ciência médica é a preservação da dignidade humana como prioridade absoluta, sendo inclusive mais importante que a preservação da vida do corpo físico. Nem tudo o que é tecnicamente possível é eticamente admissível. Adotar medidas desproporcionais à realidade do paciente apenas prolonga sua agonia e o sofrimento de seus familiares.

Um dos grandes desafios da medicina atual é encontrar o ponto de equilíbrio entre esses dois extremos. Cabe ao médico de hoje utilizar a tecnologia e conhecimento disponíveis quando forem capazes de beneficiar seu paciente, mas cabe também a ele reconhecer quando tais ferramentas não mudarão o desfecho e poderão trazer, inclusive, mais sofrimento. A busca pela medicina do bom senso, na qual cada paciente é abordado como o ser único que realmente é, desponta como o caminho para que possamos resgatar os elos humanos entre médicos, pacientes e familiares. Essa busca é a única obstinação que vale realmente a pena.

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