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Quimioterapia e sobrevida no idoso com comorbidades

Estudo de Tamirisa et al. no JAMA Oncology discute a associação entre quimioterapia e sobrevida em pacientes idosas com câncer de mama e múltiplas comorbidades. A análise envolveu mais de 1,5 mil participantes e mostra que o tratamento com quimioterapia foi significativamente associado a benefício de sobrevida global (HR=0,67; P = 0,02). O oncologista Ricardo Caponero comenta os resultados.

Neste estudo de coorte retrospectivo foram elegíveis pacientes com 70 anos ou mais com múltiplas comorbidades e câncer de mama receptor de estrogênio e linfonodo positivo, selecionados a partir do US National Cancer Database.

De 1º de janeiro de 2010 a 31 de dezembro de 2014, um total de 1592 pacientes com idade média de 77,5 anos, 1543 (96,9%) mulheres, preencheram os critérios de inclusão. Dessa amostra, 350 pacientes (22,0%) receberam quimioterapia e 1242 (78,0%) não.

Os pesquisadores identificaram perfis distintos entre os dois braços de tratamento. “Os pacientes que receberam quimioterapia eram mais jovens (idade média de 74 vs 78 anos; P <0,001), com tumores primários maiores (pT3 / T4: 72 (20,6%) vs 182 (14,7%); P = 0,005) e maior carga nodal patológica (75 (21,4%) vs 81 (6,5%) com doença em estágio pN3 e 182 [52,0%] vs 936 [75,4%] com doença em estágio pN1; (P.001).

Tamirisa e colegas destacaram ainda que os pacientes tratados com quimioterapia também receberam outros tratamentos adjuvantes, incluindo terapia endócrina (309 (88,3%) vs 1025 [82,5%]; P = 0,01) e radioterapia (236 (67,4%) vs 540 (43,5%); P (.001).

Na coorte pareada, com acompanhamento médio de 43,1 meses (IC95%, 39,6-46,5 meses), não foi encontrada diferença estatisticamente significativa na sobrevida global mediana entre os grupos com quimioterapia e sem quimioterapia (78,9 meses a não atingida) vs 62,7 meses (IC 95%, 56,2 meses a não atingida); P = 0,13). Após o ajuste para possíveis fatores de confusão, a quimioterapia foi associada a melhora da sobrevida (taxa de risco de 0,67; IC 95%, 0,48-0,93; P = 0,02).

“Este estudo de coorte constatou que, em pacientes idosos com câncer de mama receptor de estrogênio positivo com linfonodos positivos e múltiplas comorbidades, a quimioterapia foi associada à melhora da sobrevida global”, analisam os autores.

“Apesar das tentativas de ajustar o viés de seleção, esses achados sugerem aos médicos que pacientes cuidadosamente selecionados com probabilidade de obter tratamento se beneficiam da quimioterapia adjuvante. Uma abordagem padronizada e multidisciplinar dos cuidados pode estar associada a resultados de tratamento a longo prazo neste subgrupo de pacientes”, concluem.

Risco x benefício

Por Ricardo Caponero, coordenador do Centro Avançado de Terapia de Suporte e Medicina Integrativa (CATSMI) do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

Da mesma forma que um cirurgião define a ressecabilidade de um tumor e a operabilidade do paciente, o oncologista clínico deve estabelecer os potenciais benefícios do tratamento oncológico e seus potenciais riscos.

A morbidade de tratamento é mais elevada em pacientes idosos, não só pela idade cronológica, mas principalmente pela presença de comorbidades. A avaliação geriátrica pode ser fundamental para diferenciarmos os idosos hígidos, dos vulneráveis e dos frágeis.

A grande preocupação do oncologista é não oferecer um tratamento tóxico demais, com riscos desproporcionais aos benefícios, mas o que talvez seja mais difícil, deixar de oferecer um tratamento útil, comprometendo os resultados.

O estudo de Tamirisa et al. avalia 1.592 pacientes idosas (70 anos ou mais), com diversas comorbidades, com câncer de mama de perfil luminal e com axila comprometida. Cerca de três quartos dessas pacientes não receberam quimioterapia adjuvante.

Como se trata de um estudo observacional, há um grande viés com a quimioterapia sendo mais frequentemente indicada para pacientes mais jovens, com tumores maiores e maior número de linfonodos axilares comprometidos. Essas pacientes mais frequentemente recebiam terapia endócrina e radioterapia adicionais.

Após seguimento mediano de 43,1 meses, não houve diferença estatisticamente significativa na sobrevida global. Só se encontrou benefício em favor da quimioterapia, com taxa de risco de 0,67 (p=0,02) quando a população foi ajustada para potenciais fatores de confusão.

A conclusão do estudo é mais ou menos óbvia. Pacientes de maior risco se beneficiam mais com a quimioterapia, independentemente da idade, desde que as comorbidades sejam adequadamente avaliadas.

Só a constatação do que muitos já fazem na prática, ressaltando a necessidade de não deixar de oferecer tratamento adequado mesmo a pacientes idosas com comorbidades.

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